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Picadas de cobras. Mitos e verdades
 

Especialistas condenam socorro com torniquete

O Brasil enfrenta cerca de 20 mil acidentes ofídicos por ano causados por picadas de serpentes, segundo dados do Ministério da Saúde. Entre 1993 e 2000, foram 81.611 acidentes somente nas regiões Sul e Sudeste do país. No município de São José dos Campos foram registrados 140 acidentes entre 1999 e 2003, 50% deles envolvendo indivíduos entre 21 e 50 anos, e 29% atingindo crianças e jovens de zero a 20 anos.

As principais vítimas dos acidentes ofídicos – 76% delas – estão na zona rural. Conhecer as medidas de prevenção desses acidentes e, mais ainda, saber como proceder em casos de picadas por cobras (como são popularmente chamadas as serpentes) evita o agravamento dos casos, as seqüelas permanentes e, até ajuda a salvar vidas.

Conhecendo as serpentes

Cascavéis, jaracacas, urutus e corais são as cobras mais comuns na região do Vale do Paraíba, que compreende São José dos Campos e cidades próximas. Essas espécies de serpentes são chamadas peçonhentas, porque possuem em sua dentição um par de dentes próprio para a inoculação do veneno nas vítimas. Algumas delas conseguem abrir a mandíbula em um ângulo de 180o, o que lhes permite picar até superfícies planas.

As serpentes peçonhentas têm características morfológicas que facilitam sua identificação. Com exceção das corais, elas possuem fosseta loreal (um orifício anterior aos olhos que é um órgão termo-receptor, cuja função é ajudar a detectar as presas), mancha pós-ocular, pupila em fenda e desenhos no couro em formato de V (que também pode ser invertido). Saber identificá-las serve para ajudar no diagnóstico em caso de picadas, orientando o tratamento.

“Em qualquer caso, as vítimas de picadas por serpentes devem procurar um hospital o mais rápido possível”, alerta Erika Fonseca Ferrari, estudante do quarto ano de biologia da Univap e estagiária do Laboratório de Fisiologia e Farmacologia da instituição.

Erika desenvolve um projeto de orientação da população para a prevenção dos acidentes ofídicos, focado principalmente nos jovens e adolescentes. Segundo ela, muitos casos de acidentes ofídicos têm conseqüências mais graves porque o socorro médico não foi prestado rapidamente, ou porque o indivíduo adotou práticas que não oferecem nenhum benefício, como os torniquetes. “Pessoas picadas por serpentes como a jararaca, por exemplo, chegam a ter que amputar o membro picado por causa dos torniquetes”, explica Erika.

O torniquete prende a circulação e concentra a ação do veneno em uma área restrita, seja ela mão, perna ou braço. O veneno age de maneira mais intensa e, no caso de picadas por jararacas ou outras serpentes do gênero (como a urutu e a caiçada), provoca lesões irreversíveis nos membros, com necrose dos tecidos. A única alternativa, nesses casos, é a amputação do membro lesado.

Evitando acidentes

Os locais mais atingidos pelas picadas de serpentes são, em ordem decrescente, pés e pernas (80%), mãos e braços (19%), cabeça e pescoço (1%). Assim, são medidas preventivas: usar botas e perneiras quando for trabalhar no campo, proteger as mãos, e nunca mexer em cobras mortas, pois o veneno continua ativo.

Também é essencial preservar os predadores naturais das serpentes, eliminar mato e entulho de perto de casa, acabar com os ratos, que atraem as cobras, e manter gansos e galinhas d’angola na propriedade, que servem para espantá-las.

Em caso de acidente, mantenha a vítima calma, deitada e, de preferência, com o membro picado elevado. Procure o hospital imediatamente. Na região compreendida por São José dos Campos e cidades próximas, somente o Hospital Municipal de São José, na Vila Industrial, faz a aplicação dos soros antiofídicos.

Jamais dê querosene ou pinga para a vítima beber. Não faça torniquetes, não esfregue folhas, raízes ou pó de café na picada, não faça cortes na pele para escoar o veneno, nem tente chupá-lo.

Essas medidas, em vez de ajudar, só complicam o quadro e oferecem risco de envenenamento também para quem socorre a vítima.

Sintomas variam

Acidentes ofídicos têm sintomas diferentes dependendo da serpente que picou o indivíduo.

* Jararaca (e outras do gênero) – Muita dor, edema, hematomas e muita hemorragia, que pode aparecer nas gengivas, no couro cabeludo ou em qualquer ferimento pré-existente. O efeito se dá no corpo todo. Podem surgir bolhas na pele. Torniquetes levam à necrose dos tecidos.

* Cascavel – Fraqueza, discreto edema, turvação da vista, pouca dor, sonolência, adormecimento da região picada e pouca reação local. Por se tratar de um veneno neurotóxico, há um bloqueio da reação muscular, que pode resultar em paralisia dos músculos da face e parada respiratória, que leva à morte. A vítima também pode ter lesões renais sérias, que exijem até transplante de rins.

* Coral – Os sintomas são bem parecidos com os causados pela picada de cascavel. Também pode levar a uma parada cardiorrespiratória.


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